escada-abaixo

sob o risco de me repetir gostava de perguntar “para quem são construídas as cidades”—ultimamente tenho andado ainda mais atenta às deslocações dos mais velhotes pelas ruas de lisboa. ora! quantas vezes ouvimos que as calçadas são aplanadas e os lindos paralelipípedos de granito são substituídos por ruas-tabuleiro para que as pessoas não tropecem ou caiam nos altos e baixos—mas então constroem-se coisas de raiz mais planas e livres de acontecimentos que às tantas mais me parecem “ideias de cidade” do que espaços habitáveis ou percorríveis.
curiosamente aqueles que foram salvos da queda por essas novas construções planas são exatamente os que se vêm mais aflitos para as atravessar—
o ex-não-chafariz do benformoso tem agora um novo visual. realmente não tenho lá visto o lixo amontoado que via mas em breve haverá uma colectânia de velhotes todos deitadinhos no passeio de baixo prontos a ser abalroados por algum dos carros que agora passam pela rua com mais velocidade.
os degraus são demasiado altos para eles, a luz do sol encandeia no branco da pedra sem calçada e não deixa ver a diferença entre os degraus, e não há nenhum apoio onde possam agarrar-se para subir ou descer por ali. diz que com os sacos das compras ainda é mais complicado. pois———-já ali nas escadinhas de são cristovão tenho encontrado muitas vezes um senhor tão dobrado sobre si próprio que para me ver quase tem que espreitar por debaixo das calças—sempre que o apanho na aventura de subir as escadas dou-lhe uma mãozinha com os últimos dois degraus de cada lance—é que o corrimão acaba mesmo a meio do penúltimo degrau, ora se ele sobe inclinado para a frente puxando como pode com a mão que se agarra ao ferro, como pode galgar os últimos 2 degraus se não há corrimão à frente? é impressionante! o homem tem que se lançar em voo e esperar acertar com o pé deformado no chão que lhe desaparece—se não acertar vem a rebolar por ali abaixo—-
são pessoas muito corajosas estes velhotes que ainda se atrevem a deslocar-se pela cidade resgatando alguma da sua autonomia, nem que seja por sobrevivência mais básica já que na maioria das vezes estão sózinhos mesmo e se não têm autonomia morrem.
cá coisas
sofia
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