a volta e dentro

Como é que uma pessoa pode achar que só porque é maior pode mais? Parece uma questão tão básica, daquelas que a gente até repuxa os olhos como quem pensa: mas isso é sempre o princípio de onde partimos para convivermos… como é que se poderiam equiparar as forças de um corpo de 2 anos com as forças de um corpo de 32, pra que me tomaria o tempo de comparar potências?

Digo isso por praticar o gerar de possibilidades no encontro com tamanhos tão diferentes entre si, e que quando alinhamos com o encontro, com o toque entre estes corpos diversos, as diferenças não categorizam, não separam, não hierarquizam.

Hoje me deparei com essas questões ao meio dos pequeninos que acompanho na Creche da Encosta do Castelo. Ouvi cada um brotando de si uma insistência em crescer, desenvolver, aprender desde dentro, quero dizer que movimento não está só em forma de deslocamento, um corpo não se move indo de um lado para outro somente, o movimento tampouco está só no entorno, e em muitos momentos de uma vida pode ser que haja muito mais força no movimento que se passa por dentro do entorno, na parte de dentro da envolvência de cada corpo, numa viagem sem sair do mesmo lugar… de alguma maneira parece mais evidente os movimentos daquilo que está a volta, mas há também movimento dentro daquilo que está envolto… vi isso hoje na quietude do Benet, a acompanhar mais de longe a algazarra do meio da sala… vejo isso que falo numa semente, plantada debaixo da terra, com tanta coisa a volta, para começar a brotar raízes e ramos que se espalham pelo espaço da terra é preciso concentrar e muito nesse tempo semeador da semente… agora imaginem uma semente de baixo da terra e uma árvore já adulta dizer a ela: “fica em pé, porque tens os braços assim torto? Não me ouves? Que semente mal disposta és tu?”, pra que isso? De que isso adianta?

Adiantar… parece-me que tem mesmo algo de adiantar nessa conversa… como se pode pensar que é difícil estar com bebés porque eles não entendem nada, não obedecem a ordens? Não adiantemos o crescimento de ninguém, se faz favor! Não seja o adulto o senhor dos tempos regulador dos parâmetros e medidas, não seja o adulto aquele que se ocupa em adianta os ponteiros dos relógios… não adianta nada, não estamos falando de coisas adiantáveis, cheias de prazos e compromissos… a força da semente é a força da semente, e a força da terra é a força da terra, não há medidas já sabidas para se calcular quantidades de crescimento, de comportamento… é nesse movimento a volta e por dentro que é possível crescer… porque julgamos que paramos de crescer, que já não é possível aprender, que a partir de uma idade (quer coisa mais indefinida de um pessoa que a idade) passamos a ser ensinadores daqueles que ainda não aprenderam… permitamos as forças actuando juntas, sem colonizar uma à outra.

Um bebé tem no corpo muito mais fluidez, muito mais água, muito mais flexibilidade. Um adulto tem muito mais cálcio, mais rigidez, dureza. Mas não façamos uma divisória aqui… não começa aqui uma linha fronteiriça onde só porque este é mais do que o outro então há sempre um que domina, há sempre aquele que tem que estar por baixo, e aquele que tem que saber o que fazer… aliás estar por baixo não é nada mal, acredito que não estar somente na vertical é algo muito urgente para a continuação do corpo, a continuação do ir e vir… quantas vezes um bebé vai ao chão e logo volta a apoiar-se para fora dele? Não vale a pena contar… não é sobre passar fases ou cumprir programas… estejamos em outros planos, voltemos ao chão, voltemos sempre.  Movimento a volta e movimento dentro…

Lyncoln

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