a atenção cria realidades

ontem ouvi o nicolau dizer com aquela calma dele: neste trabalho de escrita percebi que a atenção que eu abro em cada momento cria outras realidades.

na travessa do cotovelo, onde fazemos tantos pic-nics, conversas e ajuntamentos, há agora um grupo de gente que se encontra para um tempo de morabeza a seguir ao trabalho. chamam-lhe “o cantinho da amizade”. somos plantas do mesmo bosque, pessoas que prezam o encontro.

na cruz dos poiais passámos a deixar combinado de uma semana para a outra por que horas lá estamos à sexta feira para que esse momento de ajuntar possa ser saboreado. como uma chamada.

no mercado, na mouraria, no joão do benformoso, no largo de são domingos, na escola, no centro de dia, em casa dos mais velhotes, esses encontros ritmados vibram criando possibilidades. é um trabalho muito micro, muito ponto a ponto, daqueles que depressa se esvazia aos olhos de quem só acredita em quantidades.

talvez seja essa uma das riquezas da arte enquanto forma de conhecimento: o reconhecimento da preciosidade que é ampliar a atenção e acompanhar o desbloqueamento de impossíveis que nos desidratam e entristecem.

a não linearidade, a não narrativa, a desieraquização do visível-invisível, do tangível-intengível, o acolhimento do sensível.

como viver juntos mais-que-um tem sido a questão de fundo que muitos de nós praticam. onde deixamos de questionar modus operandi só porque se tornaram recorrentes, onde perdemos a confiança na complexidade do momento?

quantas vezes “intuímos” que este ou aquele gesto é mais ou menos ajustado em determinada ocasião e nos vemos a forçar determinado comportamento pois os “sinais” que reconhecemos ler nos parecem ditar um outro gesto…

tantas burocracias a entupir a fluidez de estar-com, tantas formalidades a inibir o encontro…tantos hábitos aceites como possíveis mesmo onde vês que só criam destruição…tanta corrupção, tanta usurpação, tanta falta de respeito, tanta desconsideração pela existência.

ontem um senhor muito preocupado dizia que não há direito que pessoas que não têm vocação para estar com pessoas, ocupem cargos onde a sensibilidade humana seria o primeiro requisito…pessoas em instituições de apoio à “terceira idade” que consideram os mais velhos como um empecilho nojento, pessoas que trabalham com crianças e queriam que elas não se mexessem nem falassem, pessoas que usam do seu poder sobre quem se vê constantemente desempoderado, maltratando, humilhando.

quantas vezes chegam as carrinhas com comida boa para utentes de determinado lugar e são os empregados locais que levam para casa o que se aproveita e deixam aquilo que já não tem qualidade? mas e o que é denunciar esses abusos? quantos abusos sustentam os abusos seguintes?

porque é que a rua de caetano palha tem resguardos cheios de xixi espalhados pelo chão? porque é que eu estou a comer batatas e atiro o saco para a calçada?

quantas vezes me sento na pedra com essa sensação de porcaria e abandono enquanto também sinto que a atenção do meu sentar cria a possibilidade de estar ali sentada?

talvez a acusação “direta”, a denúncia, o isolamento dos “factos”, seja parecida com a medicina convencional que continua a tratar as parturientes como “doentes” ou a destacar da complexidade do corpo determinado mal.

talvez possa haver a tonicidade dessa atenção ampla que cria outras realidades. talvez essas outras formas de estar, estando, ganhem confiança de se inscreverem no mundo que insiste em fingir que não existem. talvez esse esforço em fingir que não existem outras formas de vida seja já indicador da evidência de existirem. talvez devessemos ligar menos aos indicadores e confiar mais em escutar o momento amplo do ser-estar-fazer. talvez pudéssemos desperdiçar menos energia a levantar lápides de mármore que provam que fazemos, a construir curriculae que acumulam pertenças, a erguer muros que nos defendem de um qualquer “outro”que existe já desenhado em cada esquema cultural-social-político.talvez pudéssemos prezar mais o brotar de nós próprios no encontro com quem vamos sendo. talvez aí o que me distingue do não-eu fosse uma riqueza que potencia o acorde, a vibração ampliada e não um campo de batalha onde preciso garantir o contorno do eu.talvez o espaço de trânsito entre a minha casa e atua casa, entre a minha bolha e a tua bolha fosse uma espaço onde habitam os trânsitos de nós, onde pudemos afinar o brotar de ser enquanto escutamos o retorno de ser-com. numa mesma ondulação.DSCF1224

sofia

One comment

  1. elisabete

    ainda não me tinha acontecido ler sempre um blogue que subscrevi.
    a linguagem em que o pedras 13 se escreve – uma linguagem que me soa singular e feita de muitas pessoas e de muitos acontecimentos – tem aberto espaço-tempo em mim para uma atenção a tantas coisas e a tantas (co)(e)moções. e eu gosto deste espaço-tempo. até amanhã.

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