Tragédias, lágrimas e dramas que não tem soluções

Entre a Aurora e a Violeta está a passar-se um drama, uma coisa trágica, de chorar e escorrer lágrimas mesmo… um conflito sem resolução, e as duas raparigas no auge dos seus um ano e meio de vida, 80 e poucos centímetros de altura, oralidade ainda em fase de mais mexer lábios línguas e sons que articular palavras, seguem e sustentam como exímias actrizes esse jogo em que não há regras a não ser deixar transparecer que, por mais inteligentes que apareçam as propostas de amenizar aquele impasse nada que se faça resolverá esse conflito… o que elas praticam hoje:

não há soluções, não há happy end, e as duas usam das suas habilidades mais despreparadas possíveis para manter essa intensão…

Posso dar uma visão que estou tendo dessa peça que vejo, mas digo-te já que será muito subjectivo esse meu parecer, vou tentar ser o mais narrativo que possa para que se acompanhe as minuciosas artimanhas que presencio, eis o roteiro: duas mulheres bebés estão no mesmo local, uma sala de uma creche chamada Encosta do Castelo, são 10 horas da manhã de uma quarta-feira chuvosa e fria, clima que adensa a ambiência da tragédia que elas vivem ali dentro, há muitas pessoas a volta 5 delas tem nitidamente os corpos muito crescidos e idades com dois digitos, as outras 9 pessoas presentes tem em comum que nasceram no mesmo ano, muito próximas uma das outras e por alguma razão que elas ainda desconhecem lhes acontece de encontrarem-se ali naquela sala por horas durante muitos dias seguidos, há também muitos objectos de plástico no chão, algumas pelúcias, fotos nas paredes… e eis que, ao meio desse cenário, de repente um grito se expande da boca da Aurora: aaaaAAAauuuiinnhooou meoooooooo bebéééééé, aiaiaiaiaiai… e vê se a Violeta a correr para longe com um boneco nos braços, não é claro quem é o boneco, mas dá-se a entender que se trata do foco da acção, seria alguém indefeso por quem as duas disputam posse… sem que se perceba ao meio dos acontecimentos a volta, ouve-se agora a Violeta: UuuuuiiiiAAAAiii o bebé, é meooooo iiiiiiiii béeibé, Aulouuoa é meo… é incrível como elas fazem isso? Ops desculpem vou tentar ser mais imparcial, mas a verdade é que de repente inverteram-se os papeis e num relance quem chorava, passa a correr com o boneco nos braços e quem tinha o boneco deixa de o ter, no mesmo instante em que lágrimas escorrerem generosas pelas bochechinhas macias e gordinhas, a ausência do bebé parecia ser de uma dor muito grande, capaz de retorcer os músculos, virar os olhos… algo de perder o controlo emocional e dos movimentos dos membros… e assim esse jogo se seguia sem fim, por pelo menos 30 minutos.

Violeta e Aurora são rigorosas nas suas acções, os que estão a volta se envolvem por algum lado e sem perceber que não há o que fazer, o boneco passará de um lado ao outro mil vezes se assim for, isso não tem fim, não há melhor ou pior, vilã ou princesa, as máscaras aqui não escondem rostos, na verdade é tudo mentira e nem há personagens… desculpem lá a minha farsa fracassada… é mesmo gente de verdade criando relações, trabalhando afectos assim como quem se dedica a afinar um piano ou costurar um vestido sob medida…

é gente crescendo para todos os lados, e quanto se está a crescer não há soluções para os problemas do mundo… o mundo não é plano de fundo onde figuras deslocadas tem oportunidades de resolver as suas questões, sozinhas uma por uma… e eu também não vou resolver nada, viu… vê lá tu por onde entras, que o bebé é meu… não há ponto final… eu não vim aqui pra isso… se quiser que termines tu…

 

Lyncoln

One comment

  1. querido lyncoln, esta ventania é brilhante! acompanhar o comportamento humano sem te perderes a justificá-lo ou a tentar prever o que dali surgirá parece-me tão rico, urgente e actual que até tremo.
    mais uma vez o facto de reconhecermos determinadas insistências comportamentais que tendem a desenrolar-se a partir de linhas como as que vislumbras passou a ser uma mapa fixo onde parecemos estar sempre a tentar encaixar o que julgamos ver….entretanto o acontecer permanece desacompanhado…isso parece-me ser violência
    sofia

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