a casa andante!

As casas… como é a tua casa?

Lá na escola da Madalena, o primeiro ano tem uns 20 miúdos entre os 6 e 7 anos, sendo que a maioria deles mal fala português, vieram de países que eu nem imagino como será viver lá… na última sessão perguntávamos sobre a casa e o vasto vocabulário em português que se pode ter entre as coisas que estão dentro de casa e as suas repartições…

Chegamos na sala e já estavam a espera com as mesas afastadas e os pés descalços, alguns traziam as calças húmidas da chuva que caia lá fora… agitação, ruídos e necessidade de estar em contacto e gerar calor… começamos então, perto, muito próximos e mais nada, a energia que rodava ali estava dispersa e aos poucos fomos nos ouvindo e percebendo que podíamos continuar a estarmos juntos, a pulsar nessa energia que pulsava em cada um e sem cortes consideramos ouvir outros sons, outros gestos que vinham daquele ajuntamento, daquele nós que eramos nós agora, não era preciso construir outra coisa, a possibilidade de estarmos naquela manhã chuvosa juntos, a estudar por um bocado não se abriria como num portal em outro dia que fosse perfeito para isso, era começar desde dentro… e assim dessa escuta do que pulsa de um centro, de dentro e se amplia extremidades, fomos perguntando onde ficava a minha casa dentro da sala de aula… encontramos, cada um azulejo ou uma esquina da sala que quisesse estar por um bocado… morava ali… naquele pedacito de chão que agora era o espaço da minha casa, onde estava a minha cama? Lá deitamos e dormimos um sono, sonhamos, ressonamos, ouvimos autocarro que passava, gaivota que sobrevoava, cão que ladrava até um lobo uivava, mas isso acho que era dos sonhos, e ao acordarmos cada um em sua cama, esticávamos de dentro dela até onde ficava agora a porta de cada quarto… voltamos a cama, dormimos mais um bocado e deixamos vir toda aquela paisagem nocturna dos sonhos e ruídos… acordamos mais uma vez e de cada cama saltávamos até cada casa de banho, voltamos a cama e dormimos que sempre sabe bem… acordamos e agora era até a porta da rua, voltamos para a cama… e assim indo e vindo, fomos ampliando em uníssono os espaços de cada casa, que abriram-se desde o chão… quando percebemos tínhamos uma vizinhança formada por casas de diversos tamanhos e formas, o lugar onde moramos que aqui chamamos de casa, era igual só no morar, pois se eu crio o meu caminho até a cozinha, com certeza não crio igual a ti… os espaços que crio não se separam de mim, daquilo que vou sendo… crio de dentro para fora e de fora para dentro, criamos ao mesmo tempo, e que grande sinfonia! onde a afinação não é algo que vem antes dos acordes soarem… como dizia a Filomena Molder o que mantem a vida da casa não são os fundamentos…  quem dera morar numa cidade assim, onde a dureza do cimento não fosse sinal de impedimento aos meus ouvidos de ouvir ao mesmo tempo o movimento que cria a cidade e o movimento que a cidade cria, enquanto ando por ela sempre em companhia!

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Lyncoln

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