o presente do passado,ou

a rota de sexta feira passada começou em vendaval no largo de são domingos.quando o tempo está assim agreste vejo que temos mais tendência a fechar-nos em concha como se só interessasse chegar ao próximo ponto—o que para este trabalho de andar-andando estar-estando é como tirar os picos do catocatarina.

estar mais encolhido também é uma forma de estar, a abertura festiva que o verão trás e a primavera anuncia têm uma qualidade própria mas este tempo agora acontece agora e é este acontecer que vai criando corpo. quando o andré era pequenino, se calhar já contei esta história porque estou com febre, os lábios estão secos e o cérebro tem as dobras um bocado amolecidas, nós passeávamos atrás das pernas ao fim de semana. iamos sem rumo.como ele sempre se centrou muito no seu mundo de aventuras e lutas inventávamos filmes e o t-rex aparecia por trás da esquina da cruz dos poiais,ou o spinossauro aparecia por cima do arco da rua do alecrim, ou levantávamos as pernas para passar por cima de arbustos imaginários que agora eram os caixotes da rua dos fanqueiros.

contemplar, observar, ligar.

o exercício de encaracolar em nós próprios e densencaracolar bomdiando o mundo.

mais uma vez gostaríamos sempre que fosse mais fácil.

a margarida esteva aqui em casa ontem e conversámos de uma rota que fizemos pela rua do benformoso o ano passado num dia em que até houve cheias de tanta chuva. e nós ouvindo, estando, como está a dádá do bar, a rosa da lavandaria, o joao do café, quer chova ou não chova. e a margarida que foi esse fim de tarde para espanha de sapatos encharcados. e também nessa rota encontrámos a foto que quis ser o convite para os próximos programas de investigação.

está sempre ali a brotar, a criação. criar a partir de nada não é uma expressão engraçada, é uma prática, esse nada é a própria pulsão de ser o que for, o tónus de ouvir os entres que se abrem nos acordes, que serpenteiam pelo meio de tudo o que acontece.é música

a rota continuou pelo vendaval do cais das colunas, foi á mercearia da alda e da lídia que tinha sido assaltada…que terrível, depois do que tiveram que gastar agora com as malditas máquinas de faturação que estão a acabar com o comércio de vez, mais umas centenas de euros para concertar a porta.

já a falta de casas de banho públicas faz daquele cantinho morabeza, mesmo na travessa do cotovelo, o mijatório oficial da night. o negócio anda difícil e agora isto. parece que os cavalos também se abatem e a tristeza encheu o cotovelo sim.

isto é um absurdo!

não podemos viver assim! mas como é que as pessoas podem continuar a estar vivas com estas diretivas externas que só acabam com as possibilidades. é absurdo! o que tu pagas ao estado para trabalhar é o maior terror que poderíamos imaginar. então e se as pessoas deixam de pagar as contas e vêm viver para a rua?por um lado imagino que não seja fácil encontrar como pagar estes gajos de gravata que “precisam” ganhar muito mais do que nós….por outro imagino que não seja simpático pedir à merkel para saltar por cima dos corpos sem abrigo como eu saltitava com o andré por cima dos caixotes-arbustos.

dia 2 temos manifestação, continuo a sentir que não é essa a forma de luta mas será por certo uma delas se aprendermos a ver-nos lado a lado com respeito, se não gastarmos a energia a defender este ou aquele movimento em detrimento de nos ouvir uns aos outros nas nossas especificidades, faça vento ou sol, estejas radiante ou baço, sejas falante ou mudo, criança, velho, jovem ou adulto da idade útil.

o respeito resvala quando, por exemplo, é um adulto tão útil que se enche de si mesmo como a rã que quis ser boi e diz a nós, que sempre vivemos com um saquinho de moedas justo para a renda, os livros e a mercearia, que contraímos uma dívida colossal quando toda a gente sabe que são os próprios bancos que contraem essa dívida e que quem se endividou foram famílias com riqueza e que são só 10% dos portugueses…é uma camada de falsidade em cima de outra de podridão e os senhores de gravata não desistem de saber o que é melhor para nós.mas quais nós?

ontem houve conversa no mob sobre os despejos da catalunha, disse-me a ana que foi buscar um limoeiro para a casa nova.

a rota continuou pela rua nova do carvalho e foi almoçar ao mercado.conta a história que há mais um banquinho nómada que resolveu assentar arraias por ali.

a susana tem uma planta linda da bela que antes de ir abrir o seu quartinho ainda passeou pelo 13 de são paulo e subiu ao balcão da isabelinha ali na cruz dos poiais, deve ter estado a namorar os lindos azulejos de uvas roxas da tasca.

estou de cama há uns dias, mas há quem esteja há anos, imobilizada, sem poder virar a cara, sem abrir as mãos, sem abraçar…vidas-lago sem modulações sem gestos, sem palavras, um olhar amplo que pergunta quando esta longa e lenta travagem vai deixar de comprimir o mundo

parece que o tempo é roubado cada dia, quero resgatar a lentidão, andar por entre andar.

não é não ter desejo,não ter exuberância, é não me afogar na ânsia e na pressa. devagar

 

assumir a liberdade de ser quem vou sendo onde for—- que o lugar só se cria no acontecer. é essa a força que experimentamos na rota. se quisermos ouvi-la.

sofia

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