a conferência no ics e o partir do que nos separa

ontem de manhã fizemos parte de uma conferência no ics “sentir a cidade” vinhamos trazer as nossas considerações sobre documentação a partir desta prática do encontro com a rua, com as pessoas e com os lugares.

nunca vou a lado nenhum falar ou dar uma aula ou um laboratório ou o que seja sem mergulhar por dentro, aprender, não saber…não me interessa mesmo nada a sensação de imposição de uma ideia ou de uma determinada matéria que se torna “muito importante”, assim estou o tempo todo a afinar com ouvir o ressoar do que vamos abrindo no espaço, passeio a atenção por onde possa estar a vibração da pergunta que se formula no encontro porque ela está lá sempre, emergindo do acontecimento. às tantas apareceram as limpezas performativas, que tanto praticámos e que têm andado tão escondidas…na verdade não tivemos a força de não as deixar fixarem-se nessa leitura “didática”que começou a aparecer.

as limpezas performativas são, como tantas outras práticas, exercícios de atenção. de escuta. lado a lado com quem mora ou com quem passa ou conosco próprios. escovamos pedra a pedra um cantinho mínimo da cidade. não é algo que um dia será muito maior, é mesmo assim pequenino…a não ser que entre a dona arminda que só quer despejar grandes baldes ou a erika (já tá tão grande) que só quer molhar os pés e varrer,varrer, varrer.

mas aí vem o gap. se se transforma numa coisa “didática” parte logo de um fosso criado entre os detentores da verdade, os que sabem o que é melhor para nós. e os imbecis que não pensam e julgam que estão na terra deles. sim que no bangladesh eles atiram assim o lixo todo para a rua, é curioso que quem diz isso está daqui a pouco a baixar as cuecas do neto para ele fazer xixi no chão de pedra mesmo ao lado dos bancos. é esse acesso desfazado que abre um buraco entre uns uns e os outros-sejam quem sejam os uns e os outros,-que abre logo a porta para discursos e ações violentas. não é que sejamos “todos iguais”, cada um se vai especializando em ser quem é e só ela pode ser assim, não há igual. mas entrar pelo jogo de poder baseado na diferença (de acesso ao conhecimento, de idade, de lugar na sociedade, de cultura)parece-me mesmo muito violento.

uma das formas que a conferencia teve(depois de tanta dedicação e trabalho) foi de uma gestão tão apertada do tempo que não podia haver discussão e crescimento. cada um ia contar a sua história em 15 minutos e depois abre-se a perguntas——é muito triste que não se possa conversar, que as pessoas venham de longe para estar em presença quando afinal podíamos ver o trabalho na net…estar juntos em presença é muito fértil por mais desconfortável que isso seja nas demarcações de território de cada um

estava ali tanta vontade de desemburrar modus operandi obsoletos mas depois no encontro voltamos a uma organização “safe” e árida

a nossa apresentação ficou no lugar da irreverência, da provocação….que pena

ainda por cima eu estava cheia de febre e não estava nada com vontade de provocar….é só mais fácil abrir a brecha entre uns e outros, entre a investigação académica e a investigação artística.

não, não correu mal, até correu bem e até me parece que manteremos contacto…é só que a preciosidade de estar ali em presença, de estar mesmo ali, não foi escutada na sua riqueza,

hoje fico de cama e não vou à rota e ao ajuntamento, tenho mesmo pena de estar imobilizada com febre….é que na rua, na “realidade” como a ana diz, o encontro acontece sempre, sempre,sempre

com certeza os meus olhos-pele-ouvidos-nariz-sonhos estarão na rota pelo estar de quem lá está com tanto amor

sofiaDSCF1046

sofia

 

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