ainda no continuar…

Ora pois… ando com o livro do Wittgenstein atrás (últimos escritos sobre a filosofia da psicologia) proposta da Filomena Molder para estes dois encontros – hoje e amanhã no c.e.m com o título “Será o interior uma coisa que está fechada e escondida no exterior?” e ao mesmo tempo que vou lendo no autocarro sentada ao lado de um senhor de sobretudo preto e pasta em cima dos joelhos, com o sol de Lisboa pela manhã entrando pelo vidro da janela e manchando-nos aos dois, ele no seu silêncio permitindo-me navegar nas minhas leituras, no meu silêncio, arrisco-me a dizer talvez no silêncio do Wittgenstein… encontro estes quatro parágrafos:

70. As minhas palavras e as minhas emoções interessam-me de modo completamente diferente do que aos outros. (Inclusive, por exemplo, a minha entoação.) Não me relaciono com aquelas como observador.

71. Não me posso observar como aos outros, perguntar a mim mesmo “O que é que este vai fazer agora?” etc.

72. Daí que o verbo “ele acredita”, “eu acreditava” não possa ter a continuação na primeira pessoa como o verbo “comer”

73. “O que seria, porém, a continuação que eu esperaria de mim?!”

Não consigo ver nenhuma.

ler estes três parágrafos provocou-me uma sensação semelhante a ver certos encadeamentos de árvores ou de pedras na praia, ou de pessoas numa fila de autocarro, ou de pedras da calçada com sapatos, ervas espreitando das frestas e pedaços de pastilha elástica… qualquer coisa como uma unidade a que não atribuo um contorno, uma ligação invisível que une as coisas pela sua atracção recíproca que emana um conhecimento próprio que não se explicita mas irrompe por entre as gastas cadeias de significações. tenho passado tanto tempo a considerar o que é continuar… o que seria a continuação que eu esperaria de mim… essa continuação que não é um forçar de ligações que posso justificar como sendo na sequência de – , mas que eu sei, todos sabemos que são habilidades lógicas que não consideram os hiatos do corpo que provocam, que reclamam um universo que se justifica a si próprio, de onde não sobra nada que não faça sentido… esta necessidade de continuação que sinto, que sinto se prolongar no silêncio das palavras do Wittgenstein, não consigo ver… não consigo dizer uma forma de fazer para que isso aconteça, mas sinto o seu convite, a sua urgência, a irresistabilidade da vertigem que me conta da estabilidade que não precisa de justificações, que não assenta em nada estável…

margarida

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