encontro de encontro em com trtrtrtrtrtr ar

Tanta coisa ajuntada e desajuntada no mesmo corpo! Esses dias têm sido uma aprendizagem do amar a complexidade do todo sem perder uma mão, um pé, um cotovelo, um pelo, e sempre de coração aberto e espiralado, como um punho fechado para fora!

A aula-ensaio de quinta-feira com chão foi linda trabalhando com a Mariana sobre coisas que têm aparecido no corpo relacionadas com Africa, Largo de São Domingos, paisagem e geografia da terra-lugares, corpo relacionável, corpo do mundo. Movemo-nos perguntando a dança dos rizomas no corpo. Enraizando com o corpo todo e ouvindo o corpo desmultiplicar outros caminhos, direcções enquanto afundo por aqui ou por ali.

E nessa tarde ainda fomos para o Largo de São Domingos com Adriana e Carol e Sara. Muitas vezes me aparece um corpo glandular em determinados encontros que accionam a comunicação química no sangue a uma velocidade vertiginosa, sem lei nem abrigo! Nesse dia foi um pouco assim. Cheguei, fui logo comprar os amendoins do Largo que adoro. Tanta gente!!! Que agitação! Que movimentação! Parecia um corpo glandular virado do avesso, num caos bem arrumado. Veio-me a memória do caos africano de certas viagens-estares por lá. A partir desse momento foiiiiiiiiiiiiii semmmmmmmmmmmmmmm pararrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr a percepção que tive daquela hora!!!! Aparece a Musqueba para me comprimentar. A Musqueba conhecemo-la com a Sofia na semana anterior acho, de bate papo e lá ela deixou ela seu recado na Franzine. Chega perto de mim, beijamos, e ela pergunta “Como tá de trabalho?”. Apresento Carol e Adriana. Não sei quando se falou de couscous doce e lá fomos todas para o meio do maranhal para a Carol comer o tal de couscous embrulhadinho em papel alumínio. E de conversa em conversa senti meu corpo num daqueles cruzamentos nas estradas de terra em Moçambique, sempre a atravessar, sempre a atravessar, a ser atravessado, atravessado, atravessada. E crioulo para aqui e para ali, corpos muito perto, mas com espaço que chegue entre, sensação de intimidade preservada e escancarada. Sensação de corpo rodeado, observado, espaço estrangeiro e tão possível, apenas a uma membrana de distância. O comboio continuou a andar depressa, o comboio do tempo e não tarda nada, tipo um segundo que se calhar foram muitos minutos, estavamos ao sol mais a escorrer para o lado das ginjas. E a conversa, o pensamento junto foi naufragando dali, para memórias no corpo, para mulheres, filhos, maternidade, parto, imposições médicas, impossibilitar escolhas, romantismos da gestação, amamentar, peitos que jorram leite, auroras, e militantismos, assim fui ouvindo com os pelos do meu ouvido interno, enquanto às vezes me inclinava o corpo ou me escorregava uma anca. E fomos algures embora, nem lembro mais fazer o quê.

Mas no dia a seguir fui fazendo rota desde minha casa até à Travessa do cotovelo, essa dobrazinha que tem ali um recanto entre doce e meio esquecido. Chegar lá avivou muito meu corpo. E trouxe pela milionésima vez a pergunta do que é chegar num lugar, chegar numa pessoa, numa rua, numa gaiola com páassaros, no meu corpo ao encontro de. A Lídia estava a tapar as mangas do sol e pusemo-nos rapidamente a conversar. Conversei muito com ela e com a Dona Alda (será esse seu nome? Esqueço e invento muito nomes das pessoas, mas posso recordar cada centimetro do seu sorriso!). banquinho, caixote, chegar, instalar, poisar, ir em direção à morabeza!!! Morabeza, diz a Lídia que uma maneira que os cabo-verdeanos e anas têm de receber, de acolher, de estar junto a estar! Falámos de discotecas, de dançar, do sol, dos bolos de cabo-verde que elas vendem lá, dos dias difíceis da crise….vêm pouca gente à mercearia, pois imagino. Dancei um pouco lá fora. Passou a Cristina para ir ter com os roteiros que vinham já desde as dez pelo rio abaixo e estavam quase a chegar ali. Sentia-se uma certa mágoa na Alda, ao falarmos do pouco movimento ali na mercearia. Na Lídia era outra coisa. O movimento parecia mais importante que o assunto da conversa em si. Rimos bastante com uma história, uma descoberta de que as ostias dadas nas missas curaram uma vez (muitas??), uma gastro chata! Acho que esta informação devia aparecer na Franzine, sob anonimato!! Foi ali perto delas que nesse dia meu corpo foi ficando. Dancei bastante dentro da mercearia. Foram chegando os outros roteiros, de passo lento e suave, vivo e de quem caminha há muitas horas, muitos dias, muitos meses. O que é ser nómada? Saladas, pratos, cortar tomates, traduzir coisas para a Zornitza, conversar daqui e dali, um gesto dançando e outro, furtuitos. Senti-me muito próxima de ali. Gostava mesmo que combinássemos ali uma conversa sobre a morabeza!! E fomos andando dali para outro lugar, levantando o acampamento.

No fim-de-semana foi aparecendo uma inquietação no meu corpo. Aquela “há sempre qualquer coisa que está para acontecer…porque eu não sei, porque eu não sei ainda…..essa coisa é que é liiinnnndddaaaaa….”. Embriologia. Impossível ficar quieta. Estudar este corpo que se foi formando a partir dum corpo-célula mexe comigo duma maneira!! Foi lindo. Lindo é ouvir e dançar a Sofia enquanto ela abre essa porta do mistério do nosso desenvolvimento como quem já teve essa experiência e como quem está sempre a esquecer que sabe. Ser célula na amora do estúdio branco foi uma ventania boa para sacudir o espaço branco que pelas dez parecia ter virado sala de aula!!! Que engraçado!! Uns esperando para ouvri e aprender, enquanto outros em pulgas para mergulher, outros surfando na atmosfera para lhe apanhar a onda da criação! No meu corpo poderíamos ter dançado muitas mais propostas de movimento dessas incríveis que a Sofia traz sem se poder distinguir dançar de estudar, pensar de ser. No meu corpo quase uma mão, a direita, se dobrou para o lado errado com outro corpo que me veio para cima. Por vezes pareceu-me que o empurrar-puxar que estava por ali era muito duro, muito músculo com fibra isolada. Apanhei um susto achando que minha mãooooooooooo! Vi-a dobrar-se toda. E vi-a acompanhar com a flexibilidade do osso e a confiança das articulações o retorno aos seus limites, porque eles existem. Por momentos quis sair dali. Por momentos fiquei ouvindo isso e nem durou um segundo para que outro lugar tivesse aparecido, empurrando, puxando, compactando, agarrando, encaixando, envolvendo, esperando…tantas tempos diferentes, tecidos, camadas do desenvolvimento a aparecerem-me por entre nossas danças!! Ouvi a possibilidade da espiral muito cedo logo na célula que fui sendo na mórula que atravessamos. Ouvi no atravessar um corpo sem lados nem frentes. Muito arredondado. Ouvi muito osso a tecer direcções. Ouvi duma forma diferente a tensão da própria célula que não perde sua existência no meio de tantas outras, mesmo que protegida por uma membrana pelúcida, e graças a uma pergunta da Camila. Ouv i o corpo a afinar e ter que estar sempre a dançar, mesmo parado. Aprendi a escutar o encontro mais uma vez, numa dança com o Lyncon. Escutar o encontro, escutar o espaço entre. Escuto eu, escuto ele, escuto o quê? Escuto o nosso encontro, sem intenção, ou deixando ela deslizar para o não saber quem és tu, mas tendo muita curiosidade de conhecer! Estamos quase a entrar na parece do útero de nossas mães, mais uma vez!

Grupo estudo…muito bom!! Sara, Mariana, Carol, Adriana, masculinidades e resistências, 30 da Mouraria, criação, identidade, fluxossssssssss, direitos humanos, corpo africano, ser, dizer, afirmar, ser-estar estrangeiro é ser-estar inclinado, Rancière, dissenso, sair de si, como cada um ouve dentro e fora, trânsito no corpo, corpo e  lugar no mesmo corpo, lugares que criam com o corpo, que criam corpo, corpo que traz a terra consigo, Butler, como é que a escrita não “frama”. O que pareceu muito forte foi o estarmos mesmo a pensar juntas, à deriva nos pensamentos que eram mesmo feitos de todas, de cada uma, num lugar que me parece muito forte e potencializador, fértil, que é na beira de nós próprios, nas bordas das nossas diferenças, nas margens das nossas afinidades e dos nossos desvios umas das outras, eu a ouvir sempre a possibilidade de parar mas sem parar, de discordar mas sem ser sobre isso, de desviar para outro lugar que me interessa, de ser desviada, de estar vivamente a possibilitar em permanência o movimento de cada e do todo. Isto é muito complexo! Pode levar horas, segundos, uma vida! Aconteceu e deixou em mim fertilidade, indefinição com clareza, dúvidas sem medo, desejo, imenso movimento enquanto sentadas trocávamos de perna, de rabo, de inclinação do tronco, …Da minha parte estou muito feliz e grata e gostava que continuássemos a mergulhar nas questões das discriminações, racismo, áfrica, europa, corpo no largo, identidade, fluxos, lutas…ouvindo todas as derivas que nos afastam e nos aproximam por diferentes caminhos deste convite!! No próximo encontro deve estar um texto sobre o dissensso, uma carta à europa, e o texto da white supremacy.

Durmam bem todos e todasss  !!

Sara.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: