não é magia-ou é?

puxar-empurrar-esticar-encolher-apertar-desapertar-encolher-estender-escutar-a-tensão-justa-em-cada-momento-do-acontecer-enquanto-o-corpo-que-vais-sendo-acontece. começámos na praça do comércio, o espaço entre cada acontecer abre-se tão amplo que podemos nem ver forças que vibram esticando-encolhendo. tempo elástico—-quase esboroado. caminho-amos perto-longe pelo rio onde as obras de um novo jardim para lisboa prometem terminar em novembro passado e vou-me deixando entrar no livro-violência do zizek, trepar por umas pedras- espantar-me com as ondulações misteriosas do rio.

o mercado da ribeira fez-se um—-durante uns bons 15m não havia os do peixe, as das azeitonas, as das flores, o sr. virgílio curvo a enviar recados para o méxico, a alice a dizer que os senhores ali eram da suíça e nós éramos do mundo, não havia a necessidade de formalizar apresentações, não havia a bela que queria dançar, estava lá a bela dançante, durantes esse bocado de manhã quem quis viu a magia—-duas senhoras começam a cantar num cantinho e a música percorre sem “eu acho isto eu acho aquilo”—-uma ondulação misteriosa como os embalos do rio abre o véu do acontecer—magia—-

o 13 de são paulo traz o real-irreal na mesma vibração. a dona irene está conte-triste, a sr.manel está ausente presente, o gonçalo beija a mulher do calendário-beija a mulher mariana—-o corpo que vai sendo sofia afina, move-se por dentro de si própria—-não sabe—–não sabe—————–rua nova do carvalho-rua do alecrim, passar por cima passar por baixo—-passa o senhor manel a andar todo torto finalmente vindo do hospital, então tem feito os exercícios que lhe desenhei no papel? tenho sim-não tenho não- estou muito aflito—-está todo torto—-uns sobem outros ficam na rua de baixo—–lá se abre um tempo sem fim—-qualquer movimento que eu abra em deslocação é demasiado—-entrar-entrar-entrar-ficar-entrar-ficar-entrar—–o sol a deslocar-se sem piedade, a sombra a revelar outras cores, outros reflexos, a dança nua ao colo-lap dance-show erótico refletido na água da poça, as moscas naquela dança ali entre o pó do sol e o pó da sombra—-não há estranheza—não dessa estranheza “o que é que vocês estão aqui a fazer?” a mulher espera cliente e avisa-me quando as moscas voltam, o outro sai do bar com os pés molhados e mangueira no ar—é desconhecido mas não é estranho.

travessa do cotovelo—a lídia diz que agora se chama à esquina mercearia a esquina da alegria, também ela, pelo meio das risotas e dos abraços, ondula pela tristeza-alegre—vontade que as coisas tivessem sempre uma densidade abraçável, mas às vezes são tão desboroadas, temos que ajustar o abraço—–agarrar largando—-parece que pensamos que isso é tristeza—-afinar, escutar.

continua a rota pelos passos do concelho conhecendo um joão que não é esse joão mas um dos joões da família dos joões que me dita uma carta para a próxima fanzine”o criador de dilemas que não são dilemas”, já a escrevo daqui a uns momentos. obrigada.———-rua dos douradores e o arrancamento de um quarteirão inteiro junto à rua onde passam e passaram pessoas—-tudo para a rua sem mais delongas que vem aí um hotel—–não interessa que se acabe os lombinhos ou a caixotaria, não interessa que se alarguem ajuntamentos de sem abrigo por lisboa, desde que se continue a fingir que não se vê, desde que pareça a lisboa de sempre enquanto se destrói—-não faz mal matar só alguns, desde que não sejam muitos, desalojar uma meia dúzia, exterminar alguns sonhos, matar algumas felicidades—-desde que não sejam muitas—-desde que possa parecer que somos homens bons, o brecht é que tem um poema adequado para os homens bons que acaba enterrando com uma boa pá—-rua dos douradores-rua dos fanqueiros-quais douradores e fanqueiros?

por certo virão os “artistas” construir obras alusivas aos ofícios que o hotel de charme vem esmagar—-ainda bem que assim não se perde tudo—–até deve haver já t-shirts com uma fotografia em sépia da caixotaria do sr-guilherme que tem que sair dali até ao verão! podem fazer já uma de mangas compridas para ele se abrigar quando passar a dormir na rua!

o ajuntamento na cruz dos poiais——–a magia do dia-magia-magia-magiação-talvez uma palavra que leve mais tempo a criar-se na boca por entre as ondulações da língua, por entre os mastigamentos, o sopro dos dentes—-deixa-me comer esta palavra magia-ouvir-magiaçãomentonhanemagia—-nem as fotografias podem trazer contornos da loucura-alegria que ali aconteceu. sempre que experimentava carregar no botão da máquina abria-se um tempo prolongado e  a foto só me devolvia movimento—-nada de “nitidez”—–movimento, amor—-cantamos jorge palma enconsta-te a mim—-a voz de tenor, os 5 litros de vinho no costa-posta, a dança selvagem do luis bué, a felicidade transbordante da isabelinha com a cadela linda que se chama linda ao colo, nós de gatas pela tasca e ele toca guitarra, e o pedro faz um cenário com o lenço turbante vermelho—-um tufão de acontecer-festa, abraços—-eu sou um miúdo! diz o velhote sem parar de rodopiar.

uma força grossa amassa-me o corpo que vai sendo sofia, nem as gargalhadas sacodem a massa de amor—–até amanhã, até——-até————subo em silêncio a calçada da estrela, vou sózinha mas sinto-me cheia de companhia—-chego a casa dos meus pais em demasia—-chego demasiada—–o meu pai está a acabar de ver um filme de tarantino, a minha mãe sorri em nuvem com o meu abraço demasiado e volta a mergulhar na sua quietude de lago quando não há vento—-pensava que ainda ía beber um chá, gritar, arranhar paredes—-dou comigo deitada no chão entre eles dois—–deixo-me ouvir este mundo quieto, fico no chão com os olhos no teto a ver o tempo esboroar-se—-

sofia

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: