O que é a rota:

Segundo dia que fazemos a rota nesta última quinta feira… é muito boa esta sensação de ver a rota a aparecer debaixo dos nossos pés, lado a lado com o nosso movimento na rua.   fico sempre mobilizada pela força macia que reconheço no acontecer… por vezes tão alheado das formas de vida humana mais insistentes. Ver a rota acontecer debaixo dos pés não é ter atenção ao que acontece quando se deambula pela rua, nem reconhecer que os passos realizados no percurso foram os previstos para que ele acontecesse… tenho passado alguns anos da minha vida a estar atenta a esta tentação de definir as coisas, e de como ao fazê-lo fui subtilmente passando de uma vontade de as posicionar num lugar onde as preencho de qualidades cuja junção me revela uma identidade para que possa dizer internamente que conheço a coisa, que a distingo do fundo, para uma vontade de as definir entre as coisas… então o meu esforço passa a ser o de perceber – no momento da atribuição de qualidades a uma coisa, que qualidades intimamente relacionadas com ela estou na mesma atitude a incluir ou a excluir. Dou por mim então a abrir um pólo de duas frentes intimamente relacionadas mas intrinsecamente incapazes de se sobreporem. Encontro-me então a tentar compreender as coisas não pelas qualidades que lhes reconheço num olhar unicamente direccionado para elas mas percebendo que cada olhar que dirijo às coisas tem no seu desejo outras direcções capazes de potenciar intensidades que não são as coisas a que me dirijo, mas poderiam ser, não diferem em nada na sua fisicalidade de existência. Aqui percebo um perigo (quantos percorrerei sem desconfiar da sua perigosidade?) o de me dar por contente por conseguir colocar as coisas em mim fora de um lugar inquestionável, e de então acolher como inquestionável que elas devem estar assentes entre dois pilares que não as caracterizam mas apontam para elas… o que quero dizer com isto é que corro o risco de substituir a minha vontade de conhecer as coisas posicionando-as com os atributos que lhes confiro pela vontade de as posicionar no meio de dois pontos que  esses sim posiciono com atributos… algo não tão distante de posicionar a coisa em si pelas diferenças do que não é ela, vendo bem… e então vejo-me à mesma enleada nos discernimentos dicotómicos, a percorrer os labirintos aparentemente caóticos mas já sobejamente percorridos na ansiedade de perceber uma coisa por infinitos contrastes com o que ela não é… Apanhada aqui desconfio que será na minha vontade de me dirigir às coisas, algures do mesmo movimento que me permitiu vê-las entre outras coisas que não sendo elas apontam para elas, mas que ainda assim não me podem permitir que afrouxe a tensão do desejo de conhecê-las. Desconfio que é na tensão do desejo de conhecer as coisas que está parte do conhecimento dessas coisas, na evidência física de que nada existe sozinho, mas que também há lá, de facto, fora de mim, alguma coisa a conhecer. Entre o dentro e o fora cujas bordas se formam de cada vez que pergunto sobre o dentro e o fora estão as coisas que ao mesmo tempo quero conhecer porque não são eu e já conheço pois só posso dirigir-me a elas querendo-as conhecer na tensão do desejo que as faz parte de mim, e que se quero mesmo conhecer não poderei afrouxar…

esta força macia que reconheço no acontecer, dizia no princípio do texto, é este querer conhecer sem afrouxar as fibras do ser enquanto conheço… desconfio que é isso que cria acontecimento, cria criar a rota debaixo dos pés enquanto eles caminham… não inscreve, não reclama, não demarca… não acha que qualquer coisa serve mas sabe que o quer que seja que sirva é qualquer… realmente não sei falar sobre a rota… este conhecimento não é hierárquico, não pressupõe que eu se sei uma coisa é porque sei falar sobre ela (estando ela subjugada a mim como um tigre espalmado a que chamo de tapete e que me ponho sobre)… o que conheço da rota é tão vivo quanto ela, quanto eu, quanto o que conheço de mim própria. Também não sei falar sobre mim, mas conheço-me intimamente, como conheço a rota. Não sei falar sobre a Bela ou o Senhor João, a Alice, a Irene, a Alda, o Piri piri, a fanzine, o almoçar na rua juntos ou afastados, subir ou descer, pedir um ovo estrelado, dar um abraço, a Isabel, a Linda…

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