a primeira fanzine e a rota que fizemos ontem

se calhar tenho espírito de carteiro! isto de um a um conversar e deixar uma cartinha, um jornal que cada uma das pessoas que encontro também ajudou a criar, é impressionante! não é uma coisa missionária e “disseminação da mensagem” ou de colonização de lugares e de relações…é uma espécie de magia pequenina, uma prenda afinada com o encontro. cada umaum lê o jornalinho, escreve qualquer coisa no caderno para circular na próxima, conversa, ri, chora, dança. ontem depois da rota estive numa das nossas conversas-grupos de estudo, desta vez às voltas com um texto da judith butler “bodies in alliance and the politics of the sreet”, como vinha de 5 horas de percurso pelas ruas de lisboa, 5 horas de encontro com o que vai sendo enquanto eu vou sendo também, trazia muito claro que essa força que às vezes se vê nas acampadas políticas ou nas manifestações e que às vezes se deixa de ver embora as ditas acampadas ainda ali estejam—-essa força está muito presente nestes percursos da rota—-e às vezes só estamos 2 ou 3 pessoas, 1 ou outro cão, a chuva, uma janela a bater—o tempo precioso que levei de cocoras na estrada a espreitar por baixo de uma carro procurando uma possível moeda de 2 euros que o costa tinha feito saltar da mão do outro que fez artes marciais mas não diz com quem, a isabelinha a rir-se e a tirar fotografias à cadela que é linda e se chama linda que desta vez lá estava e que assusta o piripiri e que é arraçada de galgo e boxer e que rói tudo por onde passa mas que não roeu a minha máquina de fotografar que me deu uma amiga.

desta vez começámos no mercado, saí descendo a calçada da estrela e por aí fora mas só senti a rota a começar já na rua da boavista——-vinha andando e lendo um livro grosso que a filomena molder sugeriu que lessemos para o encontro com ela no dia 14—-gosto muito de ler andando, não vou fechada em mim, não tropeço, não morro atropelada, não deixo de bomdiar quem bomdio—é um estado de atenção muito brilhante.

ali ao fundo na rua da boavista está a margarida, guardo o livro, abro a boca e não sai som, mais uns passinhos e vai “margarida!” e começo a dançar e ela a rir, é a festa!

entrámos pela banca da fátima e a jesus já tinha ido embora. que não podem ter aliança, nem brincos, que têm que lavar as mãos de meia em meia hora, que não podem tomar ali o pequeno almoço, que ela que vende legumes não pode ter flores e que no outro dia a fiscal se zangou porque uma batata doce tão linda se tinha atrevido a espalhar-se em rama e que não podia ser!

que tiveram todos que fazer uma formação de mais de 200 euros para aprender a estar a vender no mercado que é o que fazem desde que nasceram mas sem pagar a tal formação—mmmmmmmm——mas a fátima ri, vai jogando e brincando e segue o seu caminho com paz, escreveu no meu caderno para a próxima fanzine que acha que as pessoas devem olhar mais para o lado, serem mais humildes, pois!

ela não vai comprar a tal máquina das faturas, o guarda livros diz que se ela escrever as coisas num papel está muito bem assim—-só que já muita gente largou o seu lugar da vida toda por causa das malditas das máquinas das faturas.

agora deve vir pr’aí algum evento no mercado que a fiscal anda em cima de toda a gente. no outro dia estava uma rata morta ali no caixote dos restos, ora eu que não a queria aqui misturada resolvi pegar nela que afinal é um ser vivo como nós só que morto e trouxe-a, só que quando ia a caminho de a por lá fora nos caixotes veio um cliente e eu guardei a ratita um bocadinho em cima do banco…é pá! era tudo a vomitar, a vomitar! e a fátima a rir-se.

eu digo, há pior que essas ratitas mortas, há bastante pior por aí! e ninguém vomita?

nisto aparece a alice que tem quase 80 anos e todos os dias sobe oitenta degraus para chegar a casa e andava toda curvada mas fez uma operação e pôs um ferro na bacia e outro noutro joelho e agora anda direita e gosta de dançar! ena tantos abraços e tantos beijinhos e tantas cantorias, tambem começou a escrever um A no meu caderno, diz que é A de Alice mas que depois os desenhos que fez a seguir já não são letras a sério que não sabe escrever.

mas ó alice se você um dia andasse de avião ia pôr tudo a apitar. pois mas eu ia nua com um robe e só o despia a quem eu quisesse—-que eu até podia ainda andar com uma homem dos seus 50 anos—-mas não quero que ele me estrague mais do que já estou estragada! eu ia flutuando, tanta ternura pelo meio desta dureza de vida, tanto saber, tanto respeito, tanta magia!

até pr’a semana amigas e vamos à bela. que está triste. mas não parece. não dançava com o marido desde o casamento e aqui há uns tempos houve uma festa e ela encostou-o à parede e disse-lhe que se ele não dançasse com ela que não havia nada para ninguém. ele dançou-dançou-dançou- e foi aí que ela percebeu que já não tinha a energia de dançar de quando era nova, ficou triste de não sentir a força de estar a dançar sem parar, diz que está muito pesada. e está sempre a rir com os olhos verdes e a camisola rosa forte e o cabelo pintado de quase cor de laranja, é que continua também alegre.

vamos dançar aqui com certeza querida bela, tu até podias marcar uma hora assim ao meio dia e meia e chamar esta gente toda do mercado para 15m de dança, depois logo continuavam, não? pois!

largo de são paulo, café do senhor manel e da dona irene—–desta vez deu em sessão de movimento para a coluna operada dele, deitadinha ali no chão do restaurante com as pernas em cima da cadeira e o senhor manel e a dona irene com um papelinho com os bonecos que fui fazendo para depois fazerem os exercícios sózinhos lá em casa. grandes parafusos que o manel tem a atravessar as vertebras, tem horas que é preciso mesmo sentar-se. a irene de avental branco com folhos, a margarida a comer ovo estrelado, o senhor do lixo a beber aguardente e uma rapariga que se sentou para uma sopinha. a irene a esconder a fanzine no bolso, quero fazer uma surpresa ao manel, não quero que ele saiba já que está aqui o que eu escrevi a dizer que gosto muito dele—-risota.

até já——rua da boavista—–crinabel————grande temporal de abraços. diz que para a semana talvez a carolina e o jp e a fernanda ou o filipe, talvez alguns já se juntem à rota! nós queremos ir ! nós queremos ir! pois mas as burocracias aumentaram por aqui, falta umas reuniões e uns encontros e umas emails e outras coisas úteis dessas…talvez o processo não demore meses e possamos estar juntos depressa, a alda e a lídia da travessa do cotovelo já estão a morrer de saudades! quando vinhamos embora tirámos umas fotos para levar para elas. fotos a gritar lídia e alda—-talvez se oiça a gritaria na foto!

dali sobe a rua das gaivotas já com a sara e a adriana, cruz dos poiais à isabelinha e ao chá e ao costa e à tal moeda de 2 euros mais a cadela linda e vai de descer outra vez, trepar a calçada do combro, encontrar a rua da bica grande que desagua outra vez na boavista e abrir espaço de estar na mercearia da travessa do cotovelo com a cadeira catarina, o grande chapéu colorido osvaldo, a morabeza da lídia que não pára de nos convidar para mais uma ida à amadora lá ao lugar onde as pessoas convivem e dançam, e onde ela se esquece do marido enevoado. ai agora já não fico mais em casa, não fico não, vou dançar! e a alda às voltas com a nova máquina de faturação toda tecnológica—-mas agora temos net aqui ainda trazemos o computador e vimos estudar filosofia, a lídia acha muito bem isso de vir estudar e quer  também aprender a mexer no computador, diz que os filhos não dizem alto mas acham que ela é meio burra com essas coisas! bom, se eu consigo estar aqui a escrever no blog acho que qualquer pessoa consegue—-digo eu—–veremos!

curioso que desta vez entro na grande palácio da câmara municipal e deixo um jornalinho com aquelas senhoras que só têm parte de cima do corpo de tanto estar sentadas a atender—-podem ler enquanto atendem—ficaram tão agradecidas—-mmmmmmmmmmm—-vou experimentar não confundir pessoas com cargos—–aquele lugar mora noutras paisagens do meu coração, mais de julgar, de provar, de lutar por financiamentosmmmmmmmmmm—-vou experimentar.

dali atravessamos a baixa deixando a fanzine uma a uma na pombalina ou na loja das camisas, ou no senhor chinês que me deu uns brincos e que não lê português mas não faz mal eu leio para si—passamos debaixo das arcadas onde o gonçalo dançava tanto o ano passado e toda a gente pergunta quando recomeça a dança. as do cabeleireiro africano querem escrever na próxima fanzine, a ver se lá passo. atravessa a mouraria pelo meio de uma cortina de palavrões e gargalhadas ali por entre os bancos da guitarra, ficam com uma fanzine e a bela faz de chapéu para cobrir da chuva, o outro vai e tira-lhe a fanzine e põe-se a ler”vês que tem aqui aquela coisa das rendas, és muito estúpida, na volta nem sabes ler” mas lê ele, em alto.

bom— e por falar em rendas ainda damos um saltinho à rua do capelão e a senhora da loja das rendas diz que vai ler as histórias deitadinha na cama, com calminha.

e vamos entrando na rua do benformoso—-abrir a festa no café do joão que também estava triste mas agora está a cantar com o seu ar malandreco. gosto muito de vocês. lemos histórias em alto, cantamos em coro mais ou menos desafinado—grande festa numcafé tão pequeno—-já com o pedro que tinha entrado por ali frente ao cem, a alegria no ar e é sempre a aviar! o homem que bebe aguardente ao balcão vai entrando e saindo da conversa conforme consegue focar um pouco mais ou se lhe fecham os olhos. também está triste que lhe morreu um amigo mas é bom estar ali connosco, vai desapertando—-não sei como se desaperta quando mal cabemos de tanta apertação no espaço do café! é isso! apertar-desapertar—-a alice não está mas o joão guarda a fanzine para lhe ler mais tarde.

bom, já é noite, vamos andando lá para os anjos para a tal conversa sobre a rua e os corpos—a rota vai terminando, ainda passamos na rosa que larga o passar a ferro e vem abraçar risonha, cheia de vaidade da neta. está a fazer uns cartões de visita para a lavandaria mas parece que o gajo que ficou de os imprimir estava um bocado a sonhar com os preços que prometeu, na volta é meio vigarista. passamos na dádá que hoje recebe a dança da mariana. vamos abrindo em diversas direções, até amanhã, eu caminho com o pedro atravessando o largo do intendente—conversamos—-suave—-coisas sérias ou coisas leves—-conversa fluida, como os passos pelas ruas. muito amor.

a rota adensada devolve-se ao ar—-lisboa ouve o segredo—eu também

sofia

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