Recomeçar o que nunca terminou

Nesta sexta feira retomámos a prática de rotar. Andar pela cidade atrás das pernas, vivamente atrás das pernas, consequentemente atrás das pernas. Cada vez mais na minha vida me percebo familiar com estes momentos em que retomo acções que durante um tempo foram regulares e intensas e depois deixam de ser… e depois recomeçam… Acho que é de ir considerando que intensidade não tem tanto a ver com a capacidade de uma coisa provocar uma reacção em mim, mas mais com a capacidade de ela e eu estarmos lado a lado durante um tempo considerável. Esta consideração de tempo é aquela que permite que se adentre no corpo a pulsação da acção. Pode ser um momento, podem ser sete meses, só sei dizer quando verifico que de facto esse adentramento se efectuou. Assim o recomeçar também não é um reactivar do motor de iniciação, um voltar a reunir as condições que fizeram nascer aquela acção… é só lançar o corpo nessa consideração e ele na sua especificidade avança por esse universo cuja porta de entrada tem incrustrada… daí a sensação que o começar e o terminar não é iniciar e cessar, é uma especificidade de pulsação que se sintoniza como uma antena de rádio, que quando o aparelho não está a fazer passar por si aquele padrão de sonoridade não acha que ela não esteja no ar, desajuntada com outras considerações que também estão no ar, nem desconsidera o potencial de no seu corpo de rádio poder passar a qualquer momento essa estação. Voltar a fazer a rota é revisitar estas noções de tempo vivo, de tempo que não escorre impassível e inevitavelmente pelo vidro da ampulheta, mas que olha para si próprio e se refaz a cada momento. Assim é um começar e continuar, e nenhuma das duas no seu entendimento mais imediato.

guida

2 comments

  1. helena

    É bem importante pontuar as ligações entre começar e continuar e recomeçar e deixar de ser e terminar. Só fico por aqui me perguntando sobre a associação com a antena do rádio. Algo que não tenho muito claro me inquieta aí. Talvez porque nada no corpo vivo seja “desligável/ligável”. Talvez porque uma antena em um rádio desligado não se comunique como antena…

  2. margarida

    Ah! sim acho que foi por aí… algo como mesmo que não esteja a passar aquela(s) vibração(s) específica(s) que o rádio permite apanhar, ele não está “desligado” no meu sentir… de facto as vibrações estão a passar por ele e ele por elas, é a atenção dele próprio ou a tensão específica que permite que o rádio se ouça a ele mesmo reverberando essa consideração ao mundo, uma concha que puxa para dentro e para fora sem ser na anulação de forças… essa consideração é que pode ficar mais afrouxada, mas nada se liga ou desliga… obrigada

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: