lingua de cabra.uma reflexão sobre o processo de desmantelamento social,politico e económico em portugal

penso que o ensaio constante de todas as coisas do mundo é a dimensão do corpo no pátio. como o sol e a lua, que fazem seu caminho sem estardalhaços, o coração bate sem que para isso tenha que ser um espetáculo, o seu fazer é já no ensaio desse fazer.

 

sabemos que o coração, como órgão que é, está trabalhando junto com partes muito diferentes dele. considerar as partes não é isolá-las. ver sistemas não é minar as intensidades que os percorrem como nuvens.

 

não precisamos também pensar no coração para que ele exista, mas é claro que sempre podemos considerá-lo. e também podemos considerar um braço ou a pele que reveste tudo ou as narinas.

 

por que é que não podemos existir juntos com as irregularidades de nossas vibrações? por que é nos organizarmos implica exprimir-se em formas pré-concebidas para uma massa anônima? a palavra nada, na falta agora de outras, gera espaço.

 

 

 

Atravessar. Não é identificar as falhas, reagrupá-las, achar que resolvemos o buraco e descansar.

Não há salvação.

Não há uma medida que nos livre da ruptura.

A revolução está no corpo.

O desafio é atravessar. Não há encontro sem deformação, preciso ver-me na deformação. Vejo ruir os sistemas em que cresci, observo o esvaziamento dos modelos que conheço, sinto a força de uma destruição avassaladora e pratico atravessar sem me armadilhar em justificar e fixar posições claras. Uma outra tecitura de pensamento está a emergir e não posso traduzi-la com os mecanismos que conheço.

Quero atrever-me a não saber e quero que isso não me imobilize, confio na afinação do nascer do gesto, apuro a capacidade de detectar esse nascer e de estar com essa afinação e isso é assustador, mas não posso colapsar, não posso esconder-me em camadas que me representam, não posso tapar os acidentes ou abafar as dissonâncias, preciso ver, atravessar e continuar atravessando.

Não me demito de existir em nome de um corpo funcional, exijo esse rigor de mim momento a momento. Não sou um projecto, sou uma força que pulsa agora.

Não se trata de encontrar a resposta, mas de exercitar a pergunta enquanto exercitas a pergunta. Lado a lado.

———–

O que é estar junto-mais-que-um neste pátio que temos vindo a praticar há três meses ? E que pode também ser agora este momento aqui no acontecer desta jornada ? O convite é para ser um espaço aberto no qual se mergulha, sendo e estando o que formos sendo e estando, uns e uns-juntos. Mergulhar aparece com qualidade de se estar implicado no que se é enquanto existência no ser que vamos sendo. Nem sempre este espaço é aberto. Nem sempre ele não é fragmentado. Como olhamos e nos deixamos ser olhados ? Como recomeçamos com o que vamos sendo e com o que ainda não estamos a ser,  para continuarmos a estar sempre abertos para o recomeçar com quem e com o que desconhecemos? Por vezes tecem-se malhas rotas. Por vezes formam-se grupos que separam. Sempre existe a possibilidade de tecer, sempre. Mas como ? Nunca será da mesma forma. E provavelmente sustentar aí o todos juntos-mais-do-um é uma ginástica de abertura tão grande que nem sei se cabe num pátio que se quer pátio ! Não me parece que seja sobre estar com pessoas que vamos conhecendo melhor, nem com amigos com quem nos vamos encontrar, nem sobre ir para um lugar onde nos sentimos bem, se bem que afinidades espontâneas e laços afectivos trabalhados, trazem de certo possibilidades de relação. Que relação ? Também é sobre como nos relacionamos mais do que termos que estar ali sem saída. Então como fazemos se não nos relacionamos ? Como comunicamos ? O que é comunicar ? Porque sempre é aí necessária uma escuta e um convite, um desejo de estar, ou não ?! É realmente incrível como o corpo atravessa todas estas possibilidades e impossibilidades, como ele jorra dança, gesto, palavra, canto, acção quando o espaço tem espaço. Realmente ser coração é um pulsar incondicional, que pulsa, porque se não pulsa, se não contrai e descontrai, morre ! Essa vibração está sempre lá, dentro e fora dos tecidos vivos, mas nem sempre circula pelo corpo todo, pelos corpos todos, e nem sempre se faz convite ! Mas o que parece sempre estar em cada um de nós, é a possibilidade de transformar, de andar de um lado para o outro, de deitar, de aninhar, de chorar, de conversar, de pensar, de se enganar, de não saber, de ser um, dois, três, …é muito denso, e não é sobre eu ou tu, mas também é sobre eu e tu, e sobretudo sobre a vontade de estar vivo aceitando abrir sem chegar a lado nenhum, mas implicado verdadeiramente na possibilidade ou impossibilidade de não ser nada e de ser tudo e de se chegar a algum lado que até quer ser ouvido e partilhado. Sempre tem a ver com o amor e com a troca, com o ousar os trânsitos, com o deixarmo-nos migrar para os outros e dos outros para nós, se realmente nos interessamos de uma forma bem simples pelo ser humano do lado ! Parece que esta beleza do encontro talvez esteja nos dias de hoje um pouco atafulhada de muitas coisas inúteis e supérfluas, de muitas faltas de coragem e faltas de acreditar na vida. Mas há muitas formas de vida que continuam irrompendo no universo sem pedir licença, e quando isso se faz pátio juntos-mais-que-um, seja pelo silêncio, serenidade, ou pela vertigem do fogo e a espessura da terra, do osso, ou da pele, acontece revolução !

 

Compromisso que fiz comigo em estar numa situação que não reconheço, não impor-lhe uma reconciliação comigo, relacionar-me com ela em fumaça, abrindo o espaço atravessar com esses olhos tortos, cornos e picos afiados, neste caminho em que surgem esses monstros que saem de um cativeiro eterno, aparecem e se mantém a querer existir… não falo de massas disformes, ventos que soprem de não sem onde, vertigens que alteraram os estados da matéria, estou a falar de pedras no sapato que estão a moer o pé. Viver com essas pedras duras. O corpo abre, desaparece aquele visível, altera-se na matéria e acolhe essa pedra dura no pé…

 

pátio

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