…memórias…

Na minha memória estão dias de luta (mesmo que não os tenha vivido) e foi-me passada uma força poderosa de resistência. Sempre pensei, muito ingenuamente, que dias assim eu nunca iria viver. O tempo era outro e as maiores mudanças já tinham acontecido. Ao mesmo tempo sentia a tal força da luta, o seu poder e o seu significado, mesmo que para mim fosse tão simbólico e, mesmo, tão sentimental. Questionei-me muita vezes sobre a clandestinidade, sobre a possibilidade de resistência desses tempos, sobre a organização colectiva, política, partidária e sindical, sobre o medo ou a ausência dele. Senti em mim tudo isso e fui crescendo. Todas essas memórias, que agora também são minhas, fazem parte de mim. Também sou eu estas memórias. Mas parece-me, agora, que romanceei muitas das histórias que ouvi por não me parecer possível algum dia ser eu a vivê-las. Parece que me enganei!

Hoje, agora, sinto a força dessas memórias com maior intensidade e insistência. Sinto a sua força aumentada quando me deparo com a violência imposta pelo aumento das desigualdades sociais, económicas, políticas e culturais, pelo aumento constante do número de pessoas desempregadas, pelo continuado aumento de situações de precariedade laboral e habitacional, pelo desrespeito pelas pessoas e nos discursos hegemónicos demagógicos que nos tentam convencer que estamos errados. Sinto tudo isto num aumento exponencial desproporcional ao poder das partes. Na impossibilidade de medir forças de igual para igual, temos hoje outras armas poderosas. Contudo, carregamos ainda um fardo às costas que se chama ‘medo’ e que pode voltar a dar sinais!

José Gil (2009) chama-lhe ‘paralisia do desassossego’ e tem “nefastos efeitos no espaço e no tempo social e existencial”. “Quando um ditador delirante tem condições para realizar socialmente o seu delírio, não vai para o manicómio, mas é a sociedade que se torna um manicómio, às vezes quase imperceptivelmente. No caso português, o delírio do não-delírio, a aspiração violenta ao silêncio e a pequenez criaram uma sociedade aparentemente não-delirante – pelo contrário, a mais normal e moral que se podia imaginar” (idem: 17). E “as narrativas de Abril não chegaram para tapar os buracos que se abriram, proliferando, na realidade de todos os dias – no plano político, económico e cultural. Depois da turbulência, veio o ‘refluxo’ em que os velhos hábitos da antiga sociedade do medo voltaram, reinstalando-se nos comportamentos individuais e mesmo em múltiplas práticas institucionais” (ibidem: 11).

Neste momento não encontro mais palavras para dizer aquilo que penso ou sinto…mas encontrei as palavras de Chico Buarque na música “Apesar de você” (1970) que transpõem muitos dos meus pensamentos:

Hoje você é quem manda

Falou, tá falado

Não tem discussão

A minha gente hoje anda

Falando de lado

E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado

E inventou de inventar

Toda a escuridão

Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar

O perdão

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Eu pergunto a você

Onde vai se esconder

Da enorme euforia

Como vai proibir

Quando o galo insistir

Em cantar

Água nova brotando

E a gente se amando

Sem parar

 

Quando chegar o momento

Esse meu sofrimento

Vou cobrar com juros, juro

Todo esse amor reprimido

Esse grito contido

Esse samba no escuro

Você que inventou a tristeza

Ora, tenha a fineza

De desinventar

Você vai pagar e é dobrado

Cada lágrima rolada

Nesse meu penar

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Ainda pago pra ver

O jardim florescer

Qual você não queria

Você vai se amargar

Vendo o dia raiar

Sem lhe pedir licença

E eu vou morrer de rir

E esse dia há de vir

Antes do que você pensa

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Você vai ter que ver

A manhã renascer

E esbanjar poesia

Como vai se explicar

Vendo o céu clarear

De repente, impunemente

Como vai abafar

Nosso coro a cantar

Na sua frente

 

Apesar de você

Amanhã há de ser

Outro dia

Você vai se dar mal,

Etc e tal

Ana Estevens

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