a 15 o silêncio de existir-a 14 o poder do medo

a 15 de setembro aqui em lisboa um mar incategorizável de pessoas escorreu pelas ruas respondendo à chamada da manifestação contra a troika. havia um silêncio poderoso, ternura nos olhares de quem se via lado a lado com crianças e velhotes e estes ou aqueles que normalmente estão escondidos, fora da experiência comum de cidade—os loucos, os deficientes, os fora da regra—lisboa pulsou em ondas de pessoas que se viam a ver que existem. durante o dia não encontrei no ar tanto a prioridade da reivindicação, que estava lá claramente, mas a vibração do reconhecer que existes e que estás a ver que um outro-corpo pode mesmo ganhar confiança e que provavelmente até será possível criar formas de viver juntos mais-que-um que não se submetam às linhas de tristeza que vemos acontecer pelo mundo—à medida que a noite chegava já outras caras que ainda não tinha cruzado instalavam uma tensão de violência, já uma jovenzinha de uns 16 anos vinha rindo calçada da estrela abaixo a combinar por telemóvel se haviam de se encontrar lá em baixo em santos para os copos ou se se encontravam antes ali à frente para a porrada, se alguém trouxesse as cervejas—vim para casa. confiei no silêncio que tinha ouvido e não me deixei tingir do ruído que já ali nascia, ou que sempre lá está. mas vi.

o caminho foi continuando, as medidas de austeridade ostentam cada vez mais que as jangadas de salvação são só para uns e que o abstracto que se chama portugal terá que superar um a outra abstracção que se chama dívida, atropelando a vida. pelas ruas cada vez mais encontras gente a dormir, os miúdos não vão à escola porque não têm dinheiro para os transportes, os velhotes mais isolados que nunca, a arte, a educação e toda a tecitura que fortalece o tão falado estado social desintegra-se.

os outros-corpos continuam caminhando como sempre caminharam, vendo-escutando-pensando-agindo.

à medida que se aproximava ontem já os meus percursos pelas ruas da cidade cruzaram controle policial adensado, gente encostada às paredes—-preparava-se a festa—-a sociedade do espectáculo do debord ou a sociedade do controlo do foucault preparava a maquillage e as câmaras de filmar.

estar na rua ontem durante a manifestação trazia-me a sensação de fazer parte de um conjunto de criaturas sob vigilância, como uma reserva natural de humanos.

saí de são bento quando as pedras começaram a fazer-se evidentes nos bolsos de alguns. o tsunami de barbárie explodiu pelas 6 e pouco da tarde. uma senhora dizia: muitas vezes são grupos de neo-nazis com polícia infiltrada que a policia sabe reconhecer, escusam de bater a pessoas de idade, a pessoas com filhos e crianças.

não vou dizer que não interessa como “começou” a carga policial indiscriminada ou quem queimou e partiu tudo à passagem—com certeza que interessa—-mas sinto que é importante não enchermos os olhos e o coração de poeira, gastando a nossa energia em culpabilizar este ou aquele ou em queixarmo-nos do que aconteceu enquanto o medo faz o que sabe fazer tão bem—-penetra—-infiltra-se—viola—entra—tinge—habita—-e governa!!!!

não é o boneco passos coelho ou o boneco cavaco ou outro boneco qualquer que nos governam—-é o medo—-e ele está aí cheio de força—-assim nós nos desfoquemos de existir e o acolhamos—

voltei para casa pela uma da manhã depois de uma conversa brilhante em torno das questões da cidade, das “cidades criativas” e muito concretamente focando na manipulação que tem imperado relativamente ao projecto implementado surdamente na mouraria para “requalificação urbana/social”.

as ruas eram cenários de guerra. o espectáculo correu muito bem! a vigilância cumpriu os seus deveres!

danço.

sofia

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