Toda a gente vê

Não há nada pior do que faltar a um encontro que combinaste contigo próprio! Por isso é tão grande a ansiedade de chegar ao pátio… experimentar o que acontece e como acontece, sem desculpas nem refúgios… se te desculpas toda a gente vê que te desculpas, que és condescendente contigo, que reclamas que não estás preparado… se te impões toda a gente vê que te impões: que preferes lançar uma proposta do que te lançares a ti próprio, que distrais as atenções em torno de um acontecimento… se te escondes toda a gente vê que te escondes: que fazes de conta que não estás ali, corpo alheado do espaço, acreditando que se não estiveres a ver é porque não está a acontecer… se te implicas, toda a gente vê que te implicas, que te prolongas nas próprias perguntas até às bordas de outras que lá estão e te misturas com elas… se te recolhes toda a gente vê que te recolhes, que aproximas a reverberação da tua presença aos contornos do corpo, como um bico do fogão que se põe no mínimo… se acreditas toda a gente vê que acreditas, que avanças em nome de qualquer coisa em que te possas escudar atrás, e assim avançar sem correr o risco de te deformares no atravessar… se amuas toda a gente vê que amuas: o corpo entupido nem prá frente nem pra trás cheirando o seu próprio odor pra te certificares que ainda estás próximo de ti… se te alegras toda a gente vê que te alegras, que deslizas em velocidades do riso, na vertigem do incerto… se descobres toda a gente vê que descobres, que destapas, que despes uma pele que tomavas pelo conteúdo de uma forma, e a forma brilha livre do recorte que lhe anulava a pertinência… falo para ti que sou eu, e cada dia vou descobrindo mais existência no espaço entre mim e mim… falo para ti que és tu e cada dia vou descobrindo mais prolongamentos entre mim e ti. Trabalhar no pátio, trabalhar no nada é rearranjar distâncias… repensar o dentro e o fora, as relações de grandeza e de distância, é co-criar a geografia do encontro e não ficar assustado com o aparecimento de uma cordilheira ou de um tsunami, de um lago ou de uma planície… in the end toda a gente vê que ficas assustado…

margarida

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