o pavor do grande nada

também podemos criar jogos coreográficos—-também podemos propor exercícios—também podemos lançar uma ideia—-pois poder podemos—-mas queremos?é assim tão impossivel veres-te face ao grande nada?começas a observar as diversas paisagens que insistem em fazer-se convidadas: a culpa do tédio, o não saber distinguir entre não me ocupar de estratégias salvadoras e não me reconhecer desaparecendo, a falta de confiança em irromper com um monstro desconhecido, a incapacidade de lidar com o retorno daquilo que inscrevo na atmosfera, o julgamento de planos de implicação, a sensação de ser uma privilegiada por poder dedicar tantas horas a ouvir quem vou sendo enquanto outros corpos-acontecimentos vão sendo também -ao mesmo tempo que outros morrem de abandono e de tristeza e de falta de esperança—

a sensação de deformação profunda ao experimentar o corpo-sofia que se elastica e comprime em extensões e compressões que às vezes parecem perder a capacidade de voltar a ser o que já foram—-atravesso momentos em que não vejo, não sinto, não sonho, mas sei que existo—-talvez as particulas de mim se tenham distanciado umas das outras de tal maneira que tenha dificuldade em reconhecer uma sensação. nada me é indiferente, cada vez que chega o fecho do tempo de pátio(como se o pátio estivesse contido num lugar…) sei que toquei e toco a potência de acontecer, também sei que não sei relacionar-me com essa convulsão nas infinitas modulações de mim, sei que é só o primeiro passinho de uma caminhada que já está a acontecer.

tenho dito tantas vezes que vou precisar de atravessar algo que na minha configuração presente é muito maior do que aquilo que posso dançar …e confio neste corpo-sofia-que-não existe-isolado….confio, não sei precisar em quê, mas confio que esse atravessar já está a acontecer…sei que não posso agarrar-me ao que conheço mas também não posso descascar-me da experiência do caminho que tenho percorrido enquanto indivídua ou enquanto humana.

vejo os jogos de poder, de controlo, muito à superfície….quase como se—caso eu não bloqueasse o movimento de continuar a andar—- pudesse ver o quanto essas forças não se sustentam senão em desequilíbrios profundos enraizados na falta de escuta a quem vais sendo enquanto singular ou enquanto acorde de vibrações que entredançam.

aprendi no pátio que esperar não é estar à espera. é antes caminhar no espaço entre ação e reação mesmo quando vejo esses dois polos (tonificando mesmo a insistência de ver esses dois ou pluri polos)

é muito presente e cru o quanto colocamos o desejo do movimento numa vontade que mora num exterior qulaquer, que não nasce com o próprio movimento.

uma possibilidade como esta de estar aqui em acorde com estes outros corpos-acontecimentos dificilmente será repetível….desmaia o abstracto, desaparece o “mental-racional”—este corpo-acontecimento-hoje—-não existe desde um modelo funcional pré-existente—-cria-se desde nada—não se reduz—não reduz o nada a ausência—-e ouve-vê as cicatrizes que se foram fazendo corpo-acontecimento pela Terra—umas perdidas nas reconfigurações das placas-continentes, outras alojadas na invenção de um corpo-útil produtor de riqueza e desprovido de poesia, agarradas à necessidade de reconhecimento de um espaço vazio que precisa ser preenchido ou de um espaço cheio que tem que ser esvaziado, outras perguntando “mas somos culpados de quê?”—-esse corpo que procura estímulos e mais estímulos sem poder lidar com a anestesia que a invasão permanente de ruído lhe provoca—o corpo que não sente porque quer sentir—-não vê porque quer ver—-não vive porque quer viver—-quer garantir que sente, que vê, que vive numa determinada escala conveniente.

transbordo. vejo uma outra dança do corpo-acontecimento-singular-no-acorde-de acontecercom.

quando digo que não parto da separação não é que dance num lugar de indistinção, é que a gestação de ser não se constrói a partir da separação e no entanto não pode não ver as diversas vibrações. é um movimento.

sofia

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