nada —- criar

o pátio traz ao ar do momento nada–nada–nada– entro ás 10 e nem sei que já são 3 quando tenho que continuar o meu dia—é sábado sendo outro dia— mas tenho no corpo uma confusão de tédio e selvajaria–de já e ainda–de nada e tudo–nada.

apeteceu-me no outro dia escrever aqui que tudo o que escrevemos antes não existe—é esse o desafio também, deixar co-habitar o que existe com o que não existe. não tem salvação. dou comigo aborrecida e a pensar que tenho tanto que fazer e ainda não são 3 da tarde e quero ler e ouvir o ressoar da leitura nos corpos do espaço e cada vez que abro o livro com essa vontade de ler em voz alta e ouvir o acorde não aparece acorde nenhum que eu reconheça, eu própria me irrito com a vontade de ler alto e recolho a ler em silêncio só para mim—mas ali—às vezes adormecem ou adormeço e eu não sei ver se é moleza ou vibração, se é potência ou desistência—ele diz que deu consigo feliz por estar a fazer um workshop com uma direção e que aí percebeu o que sabia bem uma direção—-e o pátio ali espalhado sem direção—como isso vai conviver? será possivel coexistir a vontade de seguir com a vontade de brotar?sei que eu não quero um tema, uma indicação, não quero identificar uma fonte, não quero criar a partir de algo—quero ouvir a geração da criação mesmo no movimento talvez molecular ou atómico ou subatómico, matéria-antimatéria, ou quaisquer outros movimentos inconsideráveis agora ou sempre.

estamos juntos.afastados. como viver juntos mais-que-um? não quero  a resposta—estou mergulhada na prática de perguntar estando lá no olho do ciclone, onde não há ação-reação, não há um estímulo que desencadeia um gesto, não há narrativa, não há construção—-onde tudo ou nada co-existem—talvez por ser humana, talvez porque tenho exercitado o amor, vejo amor no pátio mas não é um amor familiar.

sinto uma grande elasticidade, uma grande exigência de elasticidade—-sinto também a ventania de estar com a potência de ser enquanto vou sendo—-o que digo não é o que digo—-acontece-me ouvir e falar palavras que não estão a acontecer na matéria da linguagem—sei que o corpo que percorre este pátio deforma o corpo que tenho aceitado como sofia. sou uma experimentação de mim mesma—sei que nada será o mesmo em novembro ou dezembro, sei que provavelmente vou cegar ou vai nascer-me mais um olho

não quero sair e analisar, não sonho com um rasgo que o pátio provoque, sinto que vivo esse rasgo em mim e aí oiço a Terra rasgando também como a Idade do Gelo— estou na idade do pátio.

sofia neuparth

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